Introdução ao Jornalismo Científico/Metodologia e Filosofia da Ciência/Os elementos da metodologia científica: observação, hipótese, experimentação, análise e publicação

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Os elementos da metodologia científica: observação, hipótese, experimentação, análise e publicação

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Esther Duflo é a segunda mulher a vencer o Nobel de Economia e a mais jovem

O objeto a ser estudado na pesquisa científica influencia muito o método aplicado. É evidente que elementos do método se repetem em inúmeras pesquisas mas a maneira como cada um dos elementos será incorporado varia caso a caso. Uma pesquisa na área de ciências humanas é orientada por métodos muito diferentes de um experimento empreendido na área das ciências exatas, ainda que um campo possa emprestar estratégias do outro para diversificar ou melhorar as análises. Como é o caso do vencedores do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2019, Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, que utilizaram uma metodologia da área da saúde para um estudo de como aliviar a pobreza no mundo.

Observação[editar | editar código-fonte]

A dificuldade de outros cientistas em aceitar fenômenos como as luas de Júpiter, que Galileu aprendeu a ver com uso do telescópio, pode ter sido suscitada justamente pela falta de habilidade em observar através desses instrumentos que, à época, eram muito rudimentares
A estratégia de observação científica se distingue da estratégia de observação ingênua na medida que pretende apresentar conjecturas lógicas e empiricamente falseáveis sobre fenômenos da natureza e da sociedade. Ou seja, enquanto a primeira forma de observação se concentra em formular ideias, hipóteses e teorias somente quando essas podem ser consideradas falsas a partir de testes e experimentações, a segunda se baseia exclusivamente na perspectiva individual e, portanto, pode ser irrefutável.

"Conhecimento científico não é conhecimento comprovado, mas representa conhecimento que é provavelmente verdadeiro. Quanto maior for o número de observações formando a base de uma indução e maior a variedade de condições sob as quais essas observações são feitas, maior será a probabilidade de que as generalizações resultantes sejam verdadeiras." [1]

Apesar do reconhecido valor da observação como parte da metodologia científica, o filósofo britânico Alan Chalmers, em seu livro "O que é ciência, afinal?", chama atenção para as variáveis que interferem na objetividade dessa etapa. Ele explica que o que é visto é afetado pelo conhecimento, experiência e expectativas do observador. Como exemplo, cita a observação feita através de telescópios e microscópios: para um iniciante, a imagem pode ser apenas um arranjo de padrões brilhantes e escuros, algo muito diferente do que o observador treinado consegue perceber. Colocada essa questão, o autor concluí que a relação de dependência entre o que vemos e o que sabemos ou esperamos a respeito do objeto observado não chega a ser tão sensível a ponto de tornar a ciência e a comunicação impossíveis, "há um sentido no qual todos os observadores vêem as mesmas coisas".

O também filósofo Antônio Joaquim Severino, em seu livro "Metodologia do trabalho Científico"[2], conta que a própria iniciativa de se observar um fato já é desencadeada por algum problema. Assim, não existem "fatos brutos", que se expliquem por si sós. Há o impulso de querer saber porque tais fatos ocorrem de tal maneira. "Por isso, não basta ver, é necessário olhar, e para tanto já é preciso estar problematizado e a presença do problema é de ordem racional, lógica" (Severino, 2014).

Hipótese[editar | editar código-fonte]

O problema é formulado como a questão que visa entender a causa dos fenômenos observados. O raciocínio lógico associado à criatividade são utilizados para a elaboração de uma hipótese, ou seja, de uma primeira explicação para determinar essa relação de causalidade. Ainda sobre esse assunto, podemos mencionar o processo filosófico do silogismo, o raciocínio dedutivo, introduzido por Aristóteles, por meio do qual duas premissas permitem inferir uma conclusão.

Exemplo:
Todos os seres humanos são mortais (premissa)

Todos os brasileiros são seres humanos (premissa)

Logo...

No caso de Newton quando observou os corpos caírem, a hipótese levantada foi de que eles caíam em decorrência de uma atração recíproca, essa força de atração poderia ser proporcional às massas e às distâncias. A hipótese é essa primeira explicação, de caráter provisório, que guia os experimentos.

Experimentação[editar | editar código-fonte]

Uma vez elaborada a hipótese, o cientista retorna ao campo experimental para realizar testes que consistem na tentativa de falseamento, eliminação de erros. Quanto mais falseável for uma conjectura mais científica ela será e será mais falseável quanto mais informativa e maior conteúdo empírico tiver.[3]

Exemplo:
"Amanhã choverá" é uma conjectura que informa muito pouco (quando, como, onde, etc...) e, por conseguinte, difícil de falsear, mas também sem maior importância. Não é facilmente falseável porque em algum lugar do mundo choverá.

"Amanhã, em tal lugar, a tal hora, minuto e segundo, choverá torrencialmente" é facilmente falseável porque tem grande conteúdo empírico, informativo. As conjecturas altamente informativas são as que interessam a ciência.

Quando resiste a teste severos, dizemos que a hipótese foi corroborada não que está confirmada. Uma confirmação consideraria o acúmulo de todos os casos positivos presentes, passados e futuros, trata-se de uma utopia. A hipótese corroborada pode assumir papel de lei. A lei científica é um princípio que unifica a explicação dos fatos, em outras palavras, vários fatos podem ser explicados mediante uma única lei considerando uma relação funcional constante entre as variáveis. Quando um conjunto de leis pode ser unificado em uma única lei abrangente, temos a teoria. Nesse sentido, o sistema seria o agrupamento de variadas teorias.

Análise[editar | editar código-fonte]

Na análise, os dados coletados serão interpretados para que possam ser feitas associações entre o fenômeno observado e outros fatores. Nessa etapa, então, verifica-se a origem das variáveis, de que forma elas se relacionam e até que ponto essas relações são válidas. É o momento que o cientista dá um significado mais amplo à sua pesquisa. Utilizando-se de vários recursos, como a construção de modelos e esquemas, e percebendo como os dados obtidos estão ligados com a teoria ou com a hipótese formulada, é possível realizar uma análise de qualidade. Os dados por si só não dizem muito, eles precisam estar associados a alguma pergunta e serem manipulados de forma a não trazer somente a resposta esperada.

Segundo o autor do livro "Como investigar en educación", J. W. Best, alguns equívocos que podem ocorrer durante a análise científica são: erros de cálculo, parcialidade inconsciente do investigador e falta de imaginação. A respeito do segundo tópico, o pesquisador pode se deixar envolver pelo problema e se inclinar mais à omissão dos resultados desfavoráveis à hipótese, enfatizando apenas os favoráveis. Já no caso da falta de imaginação, perde-se a percepção das sutilezas do processo, o que poderia resultar na perda de informações significativas.

Publicação[editar | editar código-fonte]

A parte final de toda descoberta científica consiste na divulgação dos resultados. Esse pensamento tem sido questionado ao longo do tempo pelos meios de comunicação, que fazem a ponte entre o público especializado e o público geral, e pelos próprios cientistas. Há uma iniciativa de publicar os resultados parciais, o desenvolvimento do processo.

Dessa maneira, o público poderia entender o ritmo de produção científica que é muito diferente do ritmo de produção de notícia. Conhecer o trabalho científico e os percalços do caminho poderia, então, ajudar a criar o que o professor Carlos Vogt denominou como cultura científica. Ou seja, tornar a ciência um assunto popular, amplamente discutido.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Chalmers, A. F. O que é ciência, afinal?. Editora Brasiliense, 1993.
  2. Severino, A. J. Metodologia do trabalho científico. Cortez editora, 2014.
  3. Marconi, Marina de Andrade e Lakatos, Eva Maria. Fundamentos da Metodologia Científica. Editora Atlas, 2003.
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