Introdução ao Jornalismo Científico/Metodologia e Filosofia da Ciência/Níveis de entendimento

Fonte: Wikiversidade
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Níveis de entendimento

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Filosofia da Biologia[editar | editar código-fonte]

Ernst Mayr, em 1994, depois de receber um título honorário na Universidade de Constança.

O biólogo alemão Ernst Mayr, conhecido como o "Darwin do século XXI", dedicou, em especial, os últimos anos de sua carreira ao estudo de História e Filosofia da Ciência. Antes disso, transitou por outras diversas áreas da biologia tais como Ornitologia, Genética, Evolução, conceito de espécie e classificação. No seu trabalho de organizar um corpo de concepções filosóficas próprias da Biologia, Mayr defendeu a autonomia dessa ciência e indicou como se distinguia das demais ciências físicas.[1]

A filosofia da ciência tradicional, baseada em lógica e matemática, e que adotara a conclusão de René Descartes de que um organismo nada mais é do que uma máquina, para ele, era inadequada para a construção de uma filosofia da biologia.[2] Por outro lado, uma corrente de biólogos, incluindo Hans Driesch e Henri Bergson, que defendia uma filosofia baseada em uma força oculta também não parecia oferecer a explicação mais crível sobre os organismos vivos. Assim, contrapunham-se duas ideias: o cartesianismo que de certa forma reduzia organismos a números e desconsiderava aspectos empíricos para a solução de problemas filosóficos e o vitalismo que diferenciava organismos vivos e não vivos por uma "energia vital", uma alma.

As obras publicadas no século XX sob a categoria de Filosofia da biologia, como as de Ruse (1973), Kitcher (1984), Rosenberg (1985) e Sober (1993) lidavam com questões e teorias biológicas, mas utilizavam a mesma estrutura epistemológica dos livros de filosofia da física. Além de deixarem temas especificamente biológicos fora de suas análises, como biopopulações[3] e causalidade dual, esses livros adotaram uma filosofia cartesiana. Desse modo, reiteravam a noção limitada a respeito do entendimento sobre filosofia da biologia.

Desde a Revolução Científica, a interpretação fisicalista dominou o pensamento dos filósofos da ciência. Galileu entendia a mecânica como ciência dominante, mais tarde, Kant afirmou que "só há ciência genuína [richtig], em qualquer ciência, na medida em que contém matemática". Esse tipo de pensamento, de posicionar a física e a matemática em lugar de dominância, se perpetua até os dias de hoje e pode incitar questionamentos como: "Qual seria o status científico da Origem das espécies (1859), de Darwin, que não contém uma simples fórmula matemática, se Kant estivesse certo?".

"Sim, Deus foi o criador deste mundo e responsável, diretamente ou por meio de suas leis, por tudo que existia e ocorria. A ciência, para Galileu e seus seguidores, não era uma alternativa à religião, mas parte inseparável dela, e isso permaneceu verdadeiro do século XVI até a primeira metade do XIX, o que foi aceito pelos grandes filósofos daquele período, até mesmo Kant. No entanto, a expansão vigorosa da ciência do século XVIII e do início do XIX conseguiu encontrar uma explicação natural para cada um dos fenômenos que antes requeriam a invocação da presença de Deus". MAYR, Ernst

As quatro perguntas de Tinbergen[editar | editar código-fonte]

Nikolaas Tinbergen em 1978

O etologista Nikolaas Tinbergen, em seus estudos sobre seres vivos, sistematizou quatro perguntas que ajudam a classificar o comportamento animal (inclusive, do ser humano). Esse tipo de explicação causal é uma matéria que inquieta seres humanos e vem sendo elaborada desde a Antiguidade. Aristóteles, por exemplo, afirmava que "conhecer algo cientificamente é conhecer suas causas" e estabeleceu 4 causas para orientar essa busca: material, formal, eficiente e final.

Em 1930, Julian Huxley apontou o que seriam três grandes problemas da biologia: a causa, o valor da sobrevivência e a evolução. Foi Tinbergen, em seu artigo "Sobre objetivos e métodos de etologia"[4], publicado em 1963, quem acrescentou o quarto problema, a ontogenia, ou seja, o desenvolvimento de cada indivíduo da fase embrionária à morte. Ernst Mayr, em 1961, no entanto, já incluíra em seus estudos a próxima causa e a última causa, conceitos que antecipavam esse intuito de pesquisar os níveis de entendimento biológicos.

Finalmente, as quatro perguntas podem ser definidas da seguinte forma:

Causa ou mecanismo: Qual é a causa do comportamento?

Indica a causa seguinte ou estrutural. São estímulos internos e externos que propiciam o comportamento. Nesse nível de entendimento, os receptores sensoriais desempenham um papel fundamental ao permitir a percepção das informações fornecidas por esses estímulos.

Valor de sobrevivência: Como esse comportamento contribui para a sobrevivência e o sucesso reprodutivo do animal?

Representa a causa final. Ou seja, a função adaptativa, adaptação ou vantagem do comportamento.

Ontogenia: Como esse comportamento se desenvolve durante a vida do animal?

Diz respeito às possíveis mudanças e evolução experimentadas por um padrão de comportamento ao longo da vida dos indivíduos.

Evolução: Como o comportamento evoluiu?

Também chamado de filogenia, permite a explicação de um comportamento no presente com base no sequenciamento molecular dele.

Relacionando o pensamento de Mayr e Tinbergen é possível dizer que as próximas causas, aquelas que ocorrem em relação imediata com o tempo, concernem o mecanismo e a ontogenia. Já as causas evolutivas (mais distantes ou distantes) compreendem o valor da sobrevivência e a filogenia. De modo geral, os dois biólogos refletem acerca das conexões presentes entre as ciências e como os variados níveis de entendimento permitem investigar uma mesma questão por diferentes óticas.

Crédito: O conteúdo desta aula foi baseado em uma entrevista feita com Daniel Takahashi, pesquisador associado do NeuroMat

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. POLISELI, L.; OLIVEIRA, E. F. de; CHRISTOFFERSEN, M. L. O Arcabouço filosófico da biologia proposto por Ernst Mayr. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v.6, n.1, p. 106-120, 2013.
  2. MAYR, Ernst. Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica, São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  3. ANGELO, Claudio. Para Ernst Mayr, Biologia não se reduz às ciências físicas. Folha de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0407200401.htm
  4. TINBERGEN, N. On aims and methods of Ethology. Zeitschrift Für Tierpsychologie, 20(4), 410–433, 1963.
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1 Quais foram as duas ideias predominantes na escrita de uma Filosofia da Biologia até o século XX?

Interdisciplinaridade: as questões científicas de diferentes áreas conversam entre si
Empirismo: o conhecimento sobre o mundo vem apenas da experiência sensorial
Cartesianismo: organismos são como máquinas
Relativismo: não existe uma verdade absoluta
Vitalismo: o que difere organismos vivos de não vivos é a presença de uma "energia vital"

2 Qual foi uma das contribuições de Darwin para a Ciência Moderna?

A validação da teoria do Design Inteligente
A dissociação da origem das espécies de uma visão religiosa
A afirmação da matemática como marca registrada da verdadeira ciência
O entendimento da constância do mundo
A instituição da Biologia enquanto uma ciência sem autonomia

3 Qual dos seguintes conceitos não se relaciona com as 4 perguntas de Tinbergen?

Evolução
Ontogenia
Biopopulações
Causa ou mecanismo
Valor de sobrevivência

4 De quais formas o estudo dos níveis de entendimento específicos da biologia pode contribuir para uma visão filosófica mais ampla sobre a ciência?

Indicando que a biologia é a ciência que une todas as outras
Apontando as diversas alternativas e as complexidades que envolvem a análise de um problema
Afirmando o grau de dominância do raciocínio matemático sobre o empirismo
Revelando a relação de complementariedade entre as diferentes ciências
Explicando como elaborar questões de pesquisa de fato relevantes para a sociedade

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