Introdução ao Jornalismo Científico/Metodologia e Filosofia da Ciência/A metáfora científica
A metáfora científica
O jornalismo científico não comunica apenas dados, ele também traduz, interpreta e constrói sentidos. Para isso, a linguagem desempenha um papel central. A forma como cientistas e jornalistas falam sobre descobertas influencia diretamente como o público entende e reage a certas informações. Uma metáfora mal escolhida pode gerar confusão ou medo, enquanto uma explicação clara pode engajar e estimular o interesse social.
Assim como a ciência não é neutra, a linguagem que a comunica também não é. Termos, metáforas e analogias carregam valores e moldam a percepção do que significa uma descoberta científica. A frase de George Lakoff de que “pensamos por metáforas” ajuda a entender por que o discurso científico nunca é apenas literal e que ele precisa recorrer a recursos expressivos para dar conta do novo e do complexo.
Metáforas científicas e seus impactos
Muitos conceitos científicos se tornaram inteligíveis para o público apenas porque foram explicados por meio de metáforas. O átomo já foi descrito como um “sistema solar em miniatura”; o DNA, como um “código” ou “livro da vida”. Essas imagens ajudaram a popularizar ideias complexas, mas também podem cristalizar interpretações equivocadas. No caso do DNA, por exemplo, a metáfora do “código” sugere determinismo genético, quando, na realidade, a expressão gênica depende de múltiplas interações ambientais.
O uso de metáforas no jornalismo científico é inevitável, mas deve ser feito com cuidado. A expressão “guerra contra o câncer”, muito comum em reportagens, produz a ideia de que a doença é um inimigo a ser derrotado, quando muitos tratamentos se concentram em conviver e controlar a condição, não em eliminá-la completamente. Da mesma forma, ao chamar a inteligência artificial de “cérebro eletrônico”, cria-se a impressão de que máquinas pensam como humanos, o que distorce a natureza estatística e algorítmica desses sistemas.
Jornalistas científicos constantemente enfrentam o dilema entre simplificar para facilitar a compreensão e evitar simplificações que deturpam. Uma boa prática é combinar metáforas acessíveis com explicações que ressaltem suas limitações. Por exemplo, uma reportagem sobre buracos negros pode usar a metáfora de um “ralo cósmico”, mas deve alertar que não se trata literalmente de um buraco sugando tudo ao redor, mas de um campo gravitacional extremo.
Estratégias de linguagem no jornalismo científico
Além das metáforas, outras escolhas linguísticas podem afetar a qualidade da comunicação científica. Verbos como “provar” ou “confirmar” transmitem ao público uma ideia de certeza absoluta, mas a ciência opera sempre no campo da probabilidade e da revisão contínua. É por isso que expressões como “estudos indicam” ou “evidências sugerem” são mais adequadas, ainda que possam parecer menos enfáticas.
Outro recurso comum é o uso de jargão técnico. Embora alguns termos sejam inevitáveis, o excesso de tecnicismo distancia o leitor e torna a leitura maçante. Uma reportagem sobre vacinas, por exemplo, pode mencionar “imunogenicidade”, mas precisa explicar de forma simples que se trata da capacidade de uma vacina gerar resposta do sistema imunológico. A mediação jornalística não consiste em eliminar a complexidade, mas em criar pontes entre diferentes linguagens.
A escolha da voz narrativa também importa. Reportagens que atribuem descobertas diretamente a cientistas (“pesquisadores da USP demonstraram...”) reforçam a credibilidade institucional, mas o jornalismo crítico deve ir além e explicar quem são esses pesquisadores, como se chegou a esse resultado, quais foram as limitações do estudo e quais interesses estavam em jogo. A linguagem jornalística não apenas transmite, mas também participa da construção do sentido público da ciência.
No contexto digital, o jornalismo científico enfrenta um cenário de múltiplas plataformas e interações instantâneas, o que exige uma adaptação constante das estratégias de linguagem. Além da necessidade de títulos curtos e atraentes para redes sociais, os formatos de conteúdo variam amplamente, incluindo vídeos curtos, infográficos, podcasts, e threads, que demandam uma comunicação mais fragmentada e visual.
Esse ambiente potencializa o alcance das informações, mas também amplifica riscos como a desinformação, a simplificação excessiva e o sensacionalismo. A velocidade da circulação digital pode prejudicar o rigor, tornando imprescindível que jornalistas científicos utilizem técnicas de checagem rápidas e fontes confiáveis, além de orientar os leitores sobre a complexidade dos temas. A interação direta com o público, através de comentários e redes, abre espaço para o diálogo e a construção conjunta do sentido da ciência, mas também desafia o jornalista a responder a dúvidas, críticas e até a confrontar negacionismos.
O jornalismo científico nesse ambiente tão vasto não é apenas um repassador de conhecimento, mas um mediador ativo, que precisa garantir clareza e interesse sem abrir mão da precisão e do contexto. Assim, as estratégias linguísticas e narrativas ganham uma dimensão interativa e dinâmica que reforça o papel social do jornalismo científico na formação de uma sociedade informada e capaz de tomar decisões conscientes.
Referências
- FERREIRA, Isabela Tosta. Estratégias discursivas para a comunicação científica: dilemas entre o jargão e a metáfora. Anagramas. 17(2), 1-15. 2023.
- LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metáforas da Vida Cotidiana. EDUC& Mercado. 2022.
- VOGT, Carlos (Org). Cultura científica: desafios. São Paulo: Edusp, 2006.