Introdução ao Jornalismo Científico/História da Ciência e da Tecnologia/O Renascimento Científico

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Módulo 1: Metodologia e Filosofia da Ciência Módulo 2: História da Ciência e da Tecnologia Módulo 3: Ética da Ciência Módulo 4: Temas Centrais da Ciência Contemporânea Módulo 5: Modos de Organização e Financiamento dos Sistemas de Pesquisa, no Brasil e no Exterior Módulo 6: Mídias, Linguagens e Prática do Jornalismo Científico


O Renascimento Científico

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Conteúdo

Introdução[editar | editar código-fonte]

Os primeiros sinais de que o pensamento científico estava ressurgindo apareceram na começo do Renascimento Científico, um período de transição da Idade Média para a Idade Moderna no qual a sociedade europeia passa a se preocupar menos com Deus e seus desejos, e mais com o Homem e suas capacidades intelectuais. As características da Europa mudaram em praticamente todas as camadas:

  • Sociedade: as cidades urbanizaram-se; o comércio aumentou; a burguesia cresceu; o feudalismo quase desapareceu, permanecendo em alguns poucos lugares; surgiram bancos e instituições financeiras;
  • Política: os Estados nacionais estabeleceram-se e, por efeito, com o apoio da burguesia, cresceu o poder dos governantes em detrimento do da nobreza; apareceu o sentimento nacionalista; o Estado influenciava a economia por meio de seus monopólios e de concessões e subsídios;
  • Religião: o poder "mundano" do Papa foi questionado por manter-se aliado ao feudalismo e contrário ao mercantilismo, enquanto a Igreja de Roma e sua pretensão universal foram colocadas em xeque pela Reforma Protestante e pela criação de religiões nacionais;
  • Cultura: as Artes e as Letras, influenciadas pela tradição greco-romana, produziram várias obras cujo acesso foi facilitado pela invenção da prensa; a ampliação da expressão humana na Arquitetura e nas Artes Plásticas, por exemplo, contribuíram para o aumento do conhecimento científico na Engenharia, na Anatomia, etc.

A população da Europa voltou a crescer no século XV após as milhares de mortes causadas pela peste bubônica, pela Guerra dos Cem Anos e pelas Grandes Fomes do século anterior. Estima-se que 78,7 milhões de pessoas viviam na Europa em 1300, 70 milhões em 1350 e 78,1 milhão em 1400. O crescimento demográfico voltou a acontecer devido ao controle da Peste, da melhoria produtiva agrícola e pela diminuição de guerras dentro do continente com a fixação das fronteiras entre os nações. Mais pessoas, maior a demanda por produtos, sejam eles tecidos ou especiarias. Os fornecedores, em sua maioria, eram de civilizações orientais, como China e Índia.

Se na Alta Idade Média o obscurantismo era predominante, sem espaço para o pensamento crítico e racional, o quadro mudou a favor da curiosidade e do conhecimento na Baixa Idade Média, consolidando-se de vez na Idade Moderna. O marco desta transição temporal é a queda de Constantinopla, capital bizantina, pelo Império Otomano, o que forçou as nações europeias a buscar outras rotas para chegar à Ásia. Outros fatores, como a Prensa Móvel, o Renascimento Artístico e o Protestantismo também "aceleraram o passo" do Renascimento Científico, mas nada se compara à contribuição de Nicolau Copérnico ao debate sobre o universo com sua teoria heliocêntrica.

Queda de Constantinopla[editar | editar código-fonte]

Contudo, tão rápido quanto se formou, o Império Mongol se esfacelou e os caminhos tornaram-se perigosos aos roubos e saques de caravanas, restando o Império Bizantino como área segura para os comerciantes atravessarem. Os representantes, tanto do Ocidente quanto do Oriente, encontravam-se no "meio do caminho", como nos reinos italianos de Veneza e Gênova, mas especialmente em Constantinopla, capital do Império Bizantino, atual Istambul. A localização da cidade era extremamente propícia às negociações, já que ela ficava entre a Europa e a Ásia, no Estreito de Bósforo, a ligação do Mar Mediterrâneo ao Mar Negro.

Após o cisma, no qual a Igreja Católica se dividiu entre Romana e Ortodoxa, as nações europeias do Ocidente e o antigo Império Romano do Oriente se distanciaram. Não obstante, as relações eram relativamente amistosas, até porque o comércio trazia benefícios aos envolvidos. O quadro mudou a partir de 1453, quando Constantinopla foi tomada pelo Império Otomano. Muitos historiadores consideram a queda da capital bizantina para os turcos-otomanos como o marco do fim da Idade Média.

A expansão do Império Otomano alterou a ordem mundial vigente. As transações entre as nações do Ocidente e do Oriente, tanto por terra quanto por mar, quando não bloqueadas por completo, estavam sob o controle dos otomanos. A passagem podia ser liberada mediante pagamento ou com o reconhecimento, por parte dos reinos europeus, da governança otomana onde antes era o Império Bizantino. Isso incentivou a busca por novas rotas de navegações. Já especulava-se sobre alcançar a Índia sentido oeste, atravessando o Atlântico, ou costeando a África, mas nenhuma aventura do tipo foi realizada até então.

Grandes Navegações[editar | editar código-fonte]

O contato comercial entre Europa e Ásia era frequente até a expansão otomana. Reinos italianos, como Gênova, Florença e Pisa, detinham o controle da distribuição dos produtos asiáticos, recolhidos pelos navios enviados aos portos bizantinos e árabes, onde chegavam especiarias, tecidos, prata e ouro provenientes principalmente da China e da Índia. O Império Otomano bloqueou as rotas, liberando-as somente aos muçulmanos e às nações que lhe pagavam. A demanda por produtos asiáticos, muitos dos quais inexistentes na Europa, continuou a existir e, como o acesso tornara-se mais difícil, a comercialização de especiarias virou um negócio ainda mais lucrativo.

Nas décadas anteriores à queda de Constantinopla, em 1453, Portugal procurou por novos caminhos até à Índia a fim de evitar o deserto do Saara, o qual tinham que atravessar e enfrentar muçulmanos avessos a eles para chegar à Ásia. Caravelas e naus exploraram o oceano Atlântico, margeando a África sentido sul, para contornar o território muçulmano, ultrapassando inclusive o Cabo Não, no Marroco, ponto considera intransponível por cristãos e muçulmanos. A ascensão otomana estimulou a política portuguesa de exploração marítima. Em 1488, Bartolomeu Dias passou pelo Cabo da Boa Esperança e chegou ao oceano Índico, mas um motim o fez retornar à Portugal. Quem chegou à Índia, especificamente em Calicute, foi Vasco da Gama em 1498.

A Espanha entrou na corrida marítima depois de Portugal, com a unificação dos reinos de Castela e Aragão. A experiência em navegações dos espanhóis era pequena, limitada ao Mar Mediterrâneo. Preocupados com guerras e assuntos internos, Inglaterra, Holanda e França entrariam na Era das Navegações depois das nações ibéricas, após a descoberta do "Novo Mundo" por Cristovão Colombo. O genovês, aliás, pediu à Portugal que financiasse sua expedição para chegar à Índia pelo Atlântico. Ele baseou-se em um mapa que erroneamente dizia que a Ásia estaria a 8 mil milhas da Europa sentido oeste. Os portugueses recusaram financiá-lo por duas vezes, em 1485 e 1488. Colombo conseguiu uma nau e duas caravelas com apoio da Espanha. Partiu em agosto de 1492 de Palos de la Fronte e chegou às "Índias Ocidentais", nas Bahamas, em outubro do mesmo ano.

A descoberta do continente americano foi um evento de proporções enormes cujos efeitos mudaram completamente a sociedade europeia. Os portos de Lisboa e Sevilha viraram os mais importantes da Europa, Portugal e Espanha enriqueceram, o poder monárquico aumentou e ganhou o apoio da burguesia. A descoberta do Novo Mundo e de outras rotas até a Ásia foi positivo e negativo para a Igreja de Roma, que perdia seguidores naquela época. Por um lado, era uma oportunidade para ela cristianizar os "bárbaros" índios americanos, além de chineses, japoneses e malaios. Por outro lado, a Igreja de Roma teve de enfrentar uma série de críticas, pois um novo continente, com nova fauna e flora, e a esfericidade terrestre iam contra os dogmas católicos. No que tange à Ciência, a mudança foi intensa: além de conhecer novas plantas e animais, a abóbada celeste do hemisfério sul, distinta da do norte, apresentou aos astrônomos novas constelações. A confiança plena nos textos dos antigos deu lugar à dúvida e ao questionamento. Tudo que se sabia de Geografia, História Natural e Astronomia teria de ser revisto.

Humanismo[editar | editar código-fonte]

O humanismo foi uma corrente de pensamento que surgiu com o redescobrimento das obras clássicas do período greco-romano que criticava o aristotelismo usado e deturpado pela Igreja de Roma durante a Idade Média. Os historiadores consideram Francesco Petrarca como um dos primeiros humanistas. Atribui-se a ele a elaboração do termo "Idades das Trevas" para referir-se ao declínio cultural da Europa após a queda do Império Romano do Ocidente. Ao adotar o tomismo como doutrina oficial, a Igreja de Roma viu-se como alvo de críticas destinadas tanto ao argumento central de Tomás de Aquino, de que não há contradição entre Fé e Razão, como aos conceitos aristotélicos usadas no tomismo. Isso somou-se a noção crescente entre os pensadores europeus, conforme propagado por Grosseteste e Bacon, de que seria fundamental ter acesso às obras originais e traduzi-las diretamente para o idioma usado, o latim, no caso.

Os humanistas foram fundamentais para a expansão do estudo da filosofia helenística e, por efeito, para a renovação das ideias de Platão e Pitágoras, utilizadas como oposição ao tomismo e seu caráter aristotélico. Críticos ao sistema educacional dividido em Trivium e Quadrivium, os humanistas viam a Paideia como modelo educacional a ser seguido, e a cultura clássica a fonte dos estudos. O historiador alemão Georg Voigt identificou Petrarca como primeiro "humanista". É bom lembrar que o termo foi dado por historiadores séculos depois. Ou seja, Petrarca e outros, como Leonardo Bruni e Coluccio Salutati, não se chamavam assim. Em paralelo às traduções de grego, ganhou corpo a filologia -- o estudo da linguagem - e a gramática como campo de estudo e como produções literárias; nessa época, começo do século XIV, que Dante Alighieri escreveu "A Divina Comédia". Os primeiros historiadores que pesquisaram o humanismo classificavam-no como movimento filosófico. Atualmente, a maioria considera que foi um conjunto de pessoas com conhecimento literário e habilidade linguística que queria resgatar a confiança na capacidade humana.

O tomismo não foi amplamente aceito pelos clérigos da Igreja de Roma. Os textos de Pitágoras e Platão influenciaram intelectuais que discordavam do ensino ministrado pelas universidades, estruturado sobre a interpretação de Aristóteles por Tomás de Aquino. Teólogos juntaram ideias de Platão e de Pitágoras com as do Cristianismo para criar um novo neoplatonismo. Embora não tenha sido adotada pela Igreja, essa versão de traços pitagóricos carregava a noção de que o Mundo, a Criação e os fenômenos naturais poderiam ser entendidos e explicados com números. Como consequência da difusão das ideias de Pitágoras, Matemática tornar-se-ia a essência do método científico muito em conta das contribuições de Nicolau de Cusa e Leonardo da Vinci.

A Igreja de Roma passou por tempos turbulentos após ratificar o tomismo como doutrina oficial. Sustentar a Fé com a Razão e a Lógica de Aristóteles, elementos de uma cultura pagã, era um argumento que muitos clérigos não concordavam, Duns Scot e Ockham entre eles. A divisão interna desencadeou a Reforma e a Contrarreforma. A primeira, a Reforma Protestante, alinhada aos conceitos de Santo Agostinho, teve Martinho Lutero e Ítalo Calvino como figuras fundamentais para seu desenvolvimento. Entre outras ideias, eles combatiam a ideia de que a crença precisaria de provas. Ou seja, a Fé por si só bastaria. Desejosos de ter mais poder que a Igreja e de confiscar seus bens, Estados escandinavos, alemães, a Inglaterra e outros reinos aceitaram os conceitos luteranos e seguiram o Protestantismo. A Igreja de Roma retrucou com a Contrarreforma, na qual tomou uma série de medidas, entre as quais a criação de centenas de instituições escolares na Europa baseadas na Paideia grega.

Johannes Gutenberg (1400 - 1468)[editar | editar código-fonte]

Um dos fatores fundamentais para a transição da Idade Média para a Idade Moderna, passando pelos Renascimentos Científico e Artístico, foi a invenção da prensa móvel em 1444 pelo alemão Johannes Gutenberg. Apesar dessa tecnologia existir na China desde o século XII, os europeus não a conheciam. Mais rápida e eficiente que a cópia escrita, a impressão mecânica revolucionou a produção de livros ampliando a distribuição e o acesso a eles. Até o advento da prensa móvel, a informação e o conhecimento circulavam de maneira restrita a uma pequena elite que podia bancar os estudos de um filho nas recém-criadas universidades, que, em geral, eram atreladas à Igreja de Roma. A prensa acelerou o desenvolvimento e consolidação de línguas vernáculas do latim, como o espanhol e português; proporcionou à Igreja de Roma a venda de cópias da Bíblia a baixo custo e alta qualidade; por outro lado, foi de extrema importância para Martinho Lutero, que pôde espalhar sua "95 Teses", texto com as proposições para a Reforma de Igreja Católica na qual estruturou-se o Protestantismo.

Nicolau de Cusa (1401 - 1464)[editar | editar código-fonte]

Nicolau Krebs é conhecido como Nicolau de Cusa por referência à cidade alemã onde nasceu. A contribuição de Nicolau de Cusa para a Ciência não veio com invenções, descobertas ou pesquisas científicas. Ele, na verdade, tratou de argumentar a favor do emprego da Matemática como instrumento para a elaboração do conhecimento científico, algo que ia contra as ideias vigentes naquele tempo. Medir, quantificar, calcular eram ações essenciais, necessárias para justificar teorias. Mais filósofo do que físico, de Cusa não realizou pesquisas. Seus pensamentos eram resultados de reflexões que fazia acerca do Mundo físico com o auxílio da Matemática, pois ele acreditava que todo pensamento era melhor expressado por meio dos números. Em obras como "De Docta Ignorantia" e "De Venatione Sapientiae", De Cusa dizia ser o Universo ilimitado, rejeitava a existência de direção e, no Mundo, de pontos fixos, além de falar sobre a possibilidade do heliocentrismo e da rotação da Terra. Essas ideias, por irem contra o dogma da época e por não basearem-se em pesquisa científica, tiveram ínfima repercussão quando foram publicadas. Um dos poucos a aceitá-las foi Giordano Bruno.

Leonardo da Vinci (1452 - 1519)[editar | editar código-fonte]

Talvez um dos seres mais geniais de nossa espécie, Leonardo da Vinci é amplamente conhecido por suas obras artísticas, como "A Última Ceia" e "O Homem Vitruviano", os quais foram criada pelo florentino graças ao seu amplo conhecimento em áreas diversas. Da Vinci mostrou aptidão para o desenho quando jovem e conseguiu tornar-se aprendiz do escultor e ourives Andrea Del Verrochio, que lhe ensinou técnicas de desenho, pintura, gravura, escultura e mecânica. Ao deixar o estúdio de Verrochio, foi para Milão e dedicou-se à Pintura e a projetos de engenharia, como os canais e a catedral da cidade. Depois, em 1500 e no mesmo local, tornou-se cartógrafo oficial do príncipe César Bórgia, mas não ficou apenas na elaboração de mapas e trabalhou em obras de arquitetura, engenharia e pintura. Foi neste período que Da Vinci criou sua mais icônica obra, "Mona Lisa", e escreveu dois tratados, um sobre Pintura e outro sobre Óptica. Anos depois, Da Vinci estudou assuntos relacionados à Física, como atrito, impulso, reflexão e refração da luz, inércia, etc. Também dedicou à Anatomia, a qual construiu conhecimento com a dissecação de corpos de animais e humanos. Assim, pôde ele desenhar precisamente a posição do coração, a forma dos músculos e dos ossos. Os animais dissecados lhe ajudaram na compreensão do nado dos peixes e do vôo dos pássaros, ambos fundamentais para seus desenhos de barcos e de "máquinas voadoras", algo impensável à época.

Da Vinci não sabia latim ou grego e não teve um ensino sobre a cultura clássica. Não obstante, ele defendia a Matemática como um valioso componente para a construção do conhecimento científico tanto quanto a observação e a experimentação. Como vimos, Da Vinci não se ateve a um só campo de atuação e foi prolífico tanto na pintura e na engenharia quanto na zoologia e música. O que talvez seja principal diferença de Da Vinci para outros importantes cientistas da humanidade foi sua capacidade de usar a Arte e a Ciência em seus estudos e teorias.

Nicolau Copérnico (1473 - 1543)[editar | editar código-fonte]

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